25/09/2018 - 08:37 | Economia

RESENHA SEMANAL E PERSPECTIVAS

No Brasil, o Banco Central manteve a taxa de juros e o IPCA-15 de setembro apresentou surpresa baixista. No cenário global, os EUA aumentaram novamente as tarifas sobre as importações de produtos chineses.

No Brasil, o COPOM manteve a taxa de juros em 6,5% a.a., conforme o esperado. Adecisão unânime contou com a avaliação de que a atividade segue em ritmo de recuperação gradual, enquanto a inflação corrente se encontra em nível apropriado e as expectativas inflacionárias permanecem ancoradas. A respeito do cenário global, foi mantida a visão de que o ambiente é desafiador, tendo como principais riscos a normalização das taxas de juros em economias avançadas e a tensão envolvendo o comércio internacional.Diante desse quadro, o COPOM segue com a avaliação de que manter a taxa de juros reflete o balanço de riscos prospectivo para a inflação, compatível com o processo de convergência da inflação para a meta. No que tange às projeções do IPCA, tivemos atualizações importantes. No cenário de mercado (Focus), a projeção se encontra em torno de 4,1% para 2018 (considerando Selic em 6,5% a.a. e câmbio em R$/US$ 3,83), e em 4% para 2019 (considerando Selic em 8% a.a. e câmbio em R$/US$ 3,75). Na reunião anterior as projeções para 2018 e 2019 eram de 4,2% e 4%, respectivamente. A grande mudança ocorreu no cenário com Selic constante (6,5% a.a.) e câmbio constante (R$/US$ 4,15). Nesse caso, as projeções para 2018 e 2019 ficaram respectivamente em torno de 4,4% e 4,5%, acima das projeções de 4,2% e 4,1% divulgadas na reunião anterior. Sobre os próximos passos, o Banco Central revela sua dependência da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação. Nesse sentido, o Banco Central reiterou que as condições econômicas prescrevem política monetária estimulativa. O COPOM sinalizou que uma deterioração adicional do cenário de inflação e/ou o balanço de riscos implicaria redução gradual do estímulo monetário. Esperamos que a Selic seja mantida em 6,5% a.a. até o final desse ano, mas reconhecemos que uma piora adicional do balanço de riscos, que comprometa a ancoragem das expectativas, pode antecipar um movimento de alta gradual dos juros. 

Em termos de atividade, o indicador mensal de atividade (IBC-Br), calculado pelo Banco Central, subiu acima do esperado em julho, mas ainda sinaliza uma recuperação lenta da economia. Na margem, o IBC-Br avançou 0,57%, acima da nossa projeção (0,4%) e da projeção do mercado (0,2%). Comparado ao mesmo período em 2017, o crescimento foi de 2,6%, ante expansão de 1,9% em junho. Esse crescimento ocorreu a despeito da piora das pesquisas setoriais, realizadas pelo IBGE, que indicavam uma atividade mais fraca em julho, ainda como reflexo das distorções geradas pela paralisação no setor de transporte de cargas. No caso da produção industrial, a contração foi de 0,2%. Vendas no varejo (conceito ampliado) e receita real de serviços tiveram retração de 0,4% e 2,2%, respectivamente. Podemos concluir que a recuperação em curso na economia se mantém lenta e errática. Diante desse cenário, mantemos a projeção de crescimento em 0,4% nesse trimestre, e expansão de 1,2% no ano.

O IPCA-15 de setembro registrou variação abaixo do mercado. A prévia do indicador mensal de inflação mostrou alta de 0,09%, variação abaixo da nossa expectativa (0,19%) e da expectativa do mercado (0,18%). Em 12 meses, o indicador acumula alta de 4,3%, mesmo patamar da leitura anterior. Em relação ao que projetávamos, as principais surpresas baixistas ocorreram nos grupos vestuário (0% ante 0,43% projetado), transportes (0,21% ante 0,42% projetado) e saúde (0,26% ante 0,43% projetado). Com deflação de -0,41%, o grupo de alimentação e bebidas segue com dinâmica bastante benigna. Em termos qualitativos, o IPCA-15 de serviços em 12 meses variou 3,3%, mesmo patamar do IPCA de agosto. Já a média dos núcleos de inflação (exclui componentes voláteis) teve variação de 0,22%, ante projeção de 0,30%.  Em nossa avaliação, a maior parte da surpresa no IPCA-15 de setembro se concentrou no conjunto de bens industriais. A despeito da depreciação do Real no ano, os sinais de repasse cambial ainda são bastante comedidos até o momento.  Por ora, projetamos alta de 0,37% para o IPCA de setembro.

No cenário global, a tensão comercial entre China e EUA ganhou novos contornos diante de uma segunda rodada de aumento de tarifas pelos EUA. O presidente Donald Trump anunciou uma tarifa extra de 10% sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas até o final desse ano. A partir de janeiro de 2019, essa tarifa será elevada para 25%. Na primeira rodada de tensão entre os dois países, os EUA impuseram uma tarifa de 25% sobre US$ 50 bilhões em produtos da China. De modo geral, até momento, metade do total de US$ 500 bilhões em produtos chineses importados pelos EUA tiveram suas tarifas aumentadas. Lembrando que em julho, Trump havia ameaçado sobretaxar todas as importações da China. Diante da nova elevação de tarifas, as autoridades prometeram retaliar, sem especificar as medidas que serão adotadas. Nesse sentido, o Primeiro-ministro da China, Li Keqiang, afirmou que a desvalorização cambial não será utilizada como instrumento de retaliação, em virtude de seus impactos negativos indiretos sobre a atividade. Por outro lado, as medidas de estímulo fiscal e monetário implementadas nos últimos meses deverão mitigar parte do efeito negativo sobre o PIB chinês no curto prazo. Para 2018, mantemos a projeção de crescimento em 6,5%. O risco para a economia global reside na possibilidade de uma terceira rodada de tarifas, a qual teria um impacto potencial de reduzir o crescimento chinês em 1,5 p.p. até o final de 2019. Em resumo, a tensão comercial coloca um viés de baixa para a economia global no médio prazo, em especial na China e emergentes.

Quanto aos dados econômicos, o indicador agregado de confiança (PMI) da Zona do Euro cedeu novamente em setembro, mas continua indicando expansão da atividade na região. No mês, o PMI da indústria cedeu de 54,6 para 53,3 pontos, enquanto o PMI de serviços acelerou de 54,4 para 54,7 pontos. Essa divergência entre indústria e serviços está de acordo com a nossa visão de que a região mantém condições robustas de demanda interna (mercado de trabalho e crédito), mas sofre com a incerteza oriunda da tensão do comércio global. O PMI composto, que agrega indústria, serviços e construção, desacelerou de 54,5 para 54,2 pontos. Apesar da desaceleração, o PMI composto permanece acima de 50 pontos, o que indica expansão da atividade da Zona do Euro. Nesse ano, a economia da Zona do Euro deverá expandir 2%, ante crescimento de 2,4% em 2017.  Nos EUA, o PMI  sugere ritmo mais intenso de crescimento. No caso do PMI industrial de setembro, o índice subiu de 54,7 para 55,6 pontos, enquanto o PMI de serviços desacelerou de 54,8 para 52,9 pontos. Menos exposta à demanda externa, a indústria dos EUA segue com desempenho robusto. O PMI composto cedeu de 54,7 para 53,4 pontos. O número de setembro corrobora o cenário dos EUA crescendo 3,5% na margem anualizado no terceiro trimestre.

Na próxima semana, a agenda de indicadores terá como destaque a reunião do FED na quarta-feira. Nessa reunião, esperamos que a autoridade aumente a taxa de juros em 25 p.b, elevando-a para o intervalo de 1,75% - 2% a.a. Diante de uma economia em pleno emprego e da implementação de um plano fiscal expansionista, acreditamos que o FED deva prosseguir com o aperto das condições monetárias, adotando um novo aumento de juros na reunião de dezembro.No calendário local, destaque para as notas do setor público, setor externo e crédito para o mês de agosto. Ademais, na terça-feira o Banco Central divulgará a ata de sua última reunião de política monetária., e na quinta-feira teremos a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação.

 

 
 

 


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