17/09/2018 - 09:23 | Economia

RESENHA SEMANAL E PERSPECTIVAS

No Brasil, os dados de vendas no varejo e serviços frustraram as expectativas. No global, a inflação nos EUA desacelerou de forma inesperada.

No Brasil, as vendas no varejo foram mais fracas em julho. Após contração de 1,4% em maio e queda de 0,4% em junho, o comércio restrito voltou a decepcionar em julho, ao registrar contração de 0,5% na margem, resultado abaixo da nossa projeção (+0,5%) e do mercado (+0,3%). Em relação ao que projetávamos, a maior surpresa negativa decorreu da queda de 4,8% das vendas de móveis e eletrodomésticos, devolvendo todo o crescimento observado em junho. As vendas de materiais para escritório e informática também frustraram, recuando 2,7%. O desempenho ruim desses setores superou a melhora das vendas no setor de supermercados, que cresceram 1,7%. As vendas ampliadas (incluem material de construção e veículos) cederam 0,4%, contando com recuo de 0,8% nas vendas de automóveis e contração de 2,7% nas vendas de material de construção. Na comparação com o mesmo período do ano passado, entre junho e julho as vendas no comércio restrito desaceleraram de uma alta de 1,5% para contração de -1%, enquanto no comércio ampliado o crescimento desacelerou de 3,7% para 3%. O resultado reforça o cenário de fraqueza da demanda doméstica em virtude da recuperação lenta no mercado de trabalho e da deterioração da confiança. Diante desse quadro, colocamos um viés negativo para a nossa projeção de crescimento do PIB de 0,4% na margem no terceiro trimestre.

Na mesma direção do comércio, o volume de serviços teve desempenho abaixo do esperado. No mês de julho, o volume de serviços contraiu 2,2% na margem, variação abaixo da nossa projeção (-1%) e do mercado (-1,5%). Entre os setores, a maior desaceleração ocorreu nos serviços de transporte e comunicação, que contraíram 4% e 2,2%, respectivamente. No caso dos transportes, parte da queda é explicada pela devolução da forte alta de 15,5% em junho em decorrência da recuperação da greve dos caminhoneiros. O destaque positivo ficou por conta do aumento dos serviços prestados às famílias, que expandiram 3,1% na margem. A frustração com os serviços em julho corrobora nosso viés baixista para o crescimento no terceiro trimestre.

Nos EUA, a inflação ao consumidor (CPI) e a inflação ao produtor (PPI) desaceleraram no mês de agosto, surpreendendo a expectativa do mercado. Em termos anuais, o CPI apresentou variação de 2,7% em agosto, abaixo da expectativa do mercado (2,8%) e da variação de 2,9% em julho. Ao excluirmos alimentação e energia, o indicador núcleo da inflação também desacelerou de 2,4% para 2,2%. Em relação ao PPI, a alta em termos anuais foi de 2,8%, o que frustrou a expectativa do mercado (3,2%), e representou uma desaceleração frente ao mês de julho (3,3%). Quando excluímos alimentação e energia, também observarmos uma desaceleração de 2,7% para 2,3%. Apesar da leitura mais moderada em agosto, diante do aperto do mercado de trabalho e das medidas recentes de estímulo fiscal, acreditamos que o cenário de inflação é condizente com a continuidade do aperto monetário pelo FED, com duas altas adicionais de juros nesse ano.

Os dados de atividade, por sua vez, mostraram um crescimento modesto das vendas no varejo e uma expansão mais forte da produção industrial. Na margem, o volume de vendas cresceu 0,1% em agosto, abaixo do consenso do mercado (0,4%). No grupo de controle (exclui vendas de automóveis, alimentação, gasolina e materiais de construção), que possui maior aderência com a dinâmica do PIB, a expansão foi de 0,1% na margem, também abaixo da expectativa (0,4%). A despeito do número mais fraco em agosto, vale mencionar que as revisões foram altistas para os meses anteriores. A produção industrial, por sua vez, obteve crescimento de 0,4% na margem em agosto, superando a expectativa do mercado (0,3%). Após o forte de crescimento do PIB de 4,2% (margem anualizado) no segundo trimestre, os dados preliminares sinalizam uma expansão ainda robusta no terceiro trimestre, em torno de 3,5%.

Na China, os dados de atividade apresentaram um quadro misto em agosto.  No mês, a produção industrial cresceu 6,1% em termos anuais, em linha com a expectativa do mercado, e acima do resultado de julho (6,0%), com destaque para o crescimento de 17,1% da produção de computadores e eletrônicos. O investimento em ativo fixo (FAI), por sua vez, desacelerou entre julho e agosto, saindo de 5,5% para 5,3%, frustrando a expectativa de aceleração do mercado (5,6%). Na composição do FAI, a desaceleração foi liderada pela contração do investimento em infraestrutura. As vendas no varejo cresceram 9% em termos nominais, acima da expectativa do mercado e do crescimento de julho, ambas em 8,8%. O desempenho melhor das vendas em agosto ocorreu a despeito da contração de 3,2% das vendas de automóveis. Até o momento, os dados mais recentes de atividade não foram impactos pela tensão comercial entre China e EUA. Acreditamos que a desaceleração está de acordo com o planejado pelas autoridades chinesas. Após crescimento acumulado de 6,8% em termos anuais no primeiro semestre, esperamos que o PIB desacelere para um crescimento de 6,5% ao final desse ano.

Na Zona do Euro, o Banco Central (BCE) manteve a política monetária e revisou para baixo suas projeções de crescimento. Conforme o esperado, o BCE manteve a taxa principal de juros em zero e a taxa de depósito negativa em 0,4% a.a. Já a taxa de empréstimos segue em 0,25% a.a. Nessa mesma linha, o programa de compra de títulos foi mantido em 15 bilhões de euros até dezembro. Em seu discurso, o presidente do BCE, Mário Draghi, fez questão de ressaltar que segue confiante com o cenário de crescimento na região, com riscos balanceados, embora reconheça o aumento da preocupação com a escalada da tensão comercial. Sobre a incerteza no que tange ao orçamento italiano para 2019, que será entregue à Comissão Europeia em outubro, Draghi ressaltou que o impacto do aumento do risco, até o momento, esteve circunscrito aos ativos italianos, o que é um fator positivo. Por fim, o presidente do BCE mostrou confiança com a convergência da inflação para meta, mencionando a melhora no mercado de trabalho e os ganhos salariais recentes. Em termos de projeções, o crescimento sofreu revisão baixista para 2018 (de 2,1% para 2%) e 2019 (de 1,9% para 1,8%), enquanto a expectativa para a inflação ao consumidor foi mantida em 1,7% para 2018, 2019 e 2020.  Sem pressão inflacionária aparente nos próximos meses, e o aumento da incerteza em relação ao crescimento da região, o cenário mais provável é que Draghi deixe o comando do BCE em outubro de 2018 sem elevar os juros.

Na próxima semana, a agenda local contará com a reunião do COPOM na quarta-feira, para a qual temos a expectativa de manutenção da taxa de juros em 6,5% a.a. Avaliamos, que a inflação segue apresentando comportamento benigno mesmo frente aos choques observados no período recente (depreciação da taxa de câmbio, elevação dos preços do petróleo nos mercados internacionais, greve no setor de transportes, tabela de fretes e incremento relevante nos preços da energia elétrica). As expectativas de inflação também permanecem bem ancoradas. Além disso, a recuperação da atividade segue lenta,  o que indica elevada ociosidade dos fatores. Por outro lado, a depreciação adicional da taxa de câmbio torna o balanço de riscos prospectivos para a inflação mais desfavorável. Dentro desse contexto de elevada incerteza, avaliamos que o Banco Central decidirá pela manutenção da taxa de juros. Ademais, na sexta-feira teremos a divulgação do IPCA-15 de setembro, com expectativa de uma alta de 0,18%. No calendário global, teremos como destaque a divulgação dos indicadores de confiança na Zona do Euro para o mês de setembro.

 

 
 

 

 


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