03/09/2018 - 11:59 | Economia

RESENHA SEMANAL E PERSPECTIVAS

No Brasil, o PIB do segundo trimestre surpreendeu as expectativas, mas a recuperação ainda é lenta. No cenário global, a Argentina solicitou a antecipação de recursos ao FMI.

No Brasil, o PIB do segundo trimestre confirma o cenário de recuperação lenta da atividade. Nosegundotrimestre, a economia expandiu 0,2% na margem dessazonalizada, superando a nossa expectativa e a do mercado, ambas em 0,1%. O desempenho do setor de serviços e da agricultura foram os responsáveis por essa surpresa levemente acima do esperado. Pelo lado da oferta, os serviços avançaram 0,3% na margem, contando com o crescimento de 1,2% em atividades imobiliárias e de 0,7% em atividades financeiras. A resiliência do setor de serviços evitou que o PIB contraísse em virtude da paralisação no setor do transporte de cargas no período. Os efeitos da paralisação repercutiram diretamente no desempenho da indústria, que apresentou recuo de 0,6%, com recuo forte da construção e da indústria de transformação, ambas com queda de 0,8%. A agricultura, diferentemente da contração que esperávamos, ficou estável entre o primeiro e o segundo trimestre. Analisando pela ótica da demanda, a principal contribuição positiva ocorreu no consumo do governo, com crescimento de 0,5% na margem. O consumo das famílias, por seu turno, teve crescimento modesto de 0,1%, e confirmou a expectativa de recuperação gradual da demanda. Essa trajetória é compatível com o desempenho dos dados de mercado de trabalho, do crédito e da confiança dos consumidores. Por fim, os investimentos foram o setor mais afetado pela greve dos caminhoneiros e contraíram 1,8% na margem, variação pior do que a nossa expectativa de contração de 1,4%. O resultado moderado de crescimento nesse trimestre é compatível com a nossa expectativa de recuperação gradual da atividade ao longo desse ano. Portanto, mantemos a nossa expectativa de crescimento de 1,2% para esse ano.

A nota de crédito referente ao mês de julho mostrou um ritmo de crescimento moderado, consolidando os sinais positivos pelo lado das concessões e da melhora no quadro de inadimplência. O estoque de crédito totalizou R$ 3,1 trilhões, avançando 2,4% na comparação interanual, ante expansão de 1,7% em junho. Como proporção do PIB, o estoque atingiu o patamar de 46,4%. Para pessoa física, o estoque aumentou 6,4% em termos anuais, contando com um avanço de 10,1% nas concessões no segmento livre e 2,3% no segmento direcionado. Em pessoa jurídica, por seu turno, houve contração de 2,1% do estoque, com recuo de 15,4% das concessões no segmento direcionado e aumento de 11,1% no segmento livre.  A respeito da inadimplência, o patamar se manteve em 3,5% para pessoa física, enquanto para pessoa jurídica a inadimplência atingiu o menor nível desde setembro de 2015, registrando a taxa de 2,45%. Tendo como principal vetor de recuperação a modalidade de crédito livre, o número de julho corrobora nosso cenário de expansão do crédito em 2018. Nesse sentido, esperamos que o estoque de crédito apresente expansão próxima de 5%, com crescimento de 9,2% em PF e de 0,3% em PJ.

O setor público consolidado registrou déficit de R$ 3,4 bilhões em julho. O resultado foi ligeiramente pior do que a nossa estimativa (R$ -2,8 bilhões), mas melhor em relação ao projetado pelo mercado (R$ -6,7 bilhões). No acumulado do ano, o déficit primário do setor público consolidado se encontra em R$17,8 bilhões, enquanto o saldo em 12 meses é negativo em R$ 77,1 bilhões (1,1% PIB). Em sua composição, o número de julho contou com um déficit de R$ 2,7 bilhões no governo central, déficit de R$ 1,8 bilhão nos governos regionais, e superávit de R$ 1,1 bilhão nas empresas estatais. No que concerne ao resultado nominal (inclui despesa com juros), as despesas líquidas com juros atingiram R$ 25,8 bilhões no mês e R$ 394,5 bilhões em 12 meses (5,9% do PIB). Com isso, o resultado nominal apresentou déficit de R$ 29,2 bilhões em julho, totalizando déficit de R$ 471,6 bilhões em 12 meses (7% do PIB). Diante desses números, a dívida bruta atingiu R$ 5,2 trilhões (77% do PIB), se mantendo em trajetória de aumento. Em nossa avaliação, a despeito do ritmo lento de recuperação da atividade, acreditamos que o governo registrará ao final de 2018 um déficit de R$ 147 bilhões, abaixo da meta estipulada de déficit de R$ 159 bilhões. 

Em linha com a expectativa, a taxa de desemprego atingiu 12,3% no trimestre encerrado em julho, levemente abaixo do patamar anterior (12,4%). Em relação ao mesmo período do ano passado, o número representa uma queda de 0,5 p.p. Essa queda em relação ao mesmo período em 2017 decorreu de uma expansão de 1,1% da população ocupada, com alta de 2,4% no emprego sem carteira e queda de 0,3% na geração de empregos com carteira. O número de pessoas na força de trabalho, por outro lado, aumentou 0,5% em termos anuais. Excluindo a sazonalidade do período, a taxa de desemprego recuou entre junho e julho de 12,3% para 12,2% em virtude do aumento da ocupação na margem (0,4%) superior ao aumento da população economicamente ativa (0,3%). Sobre a dinâmica de salários, o rendimento médio real avançou 0,8% em termos anuais, abaixo do patamar de junho (1,1%). Na margem, constata-se uma melhora no mercado de trabalho, embora o ritmo de recuperação permaneça lento. Para esse ano, a taxa de desemprego média deverá alcançar 12,2%, ante 12,8% em 2017.

Os dados do balanço de pagamentos revelam a condição robusta das contas externas. Em julho, o saldo em conta corrente foi deficitário em US$4,4 bilhões, número pior que a expectativa de déficit de US$3,7 bilhões. O resultado interrompeu uma série de quatro resultados positivos na sequência. Tradicionalmente, os meses de janeiro e julho contam com um fluxo de saída de recursos decorrente do pagamento de juros dos títulos públicos. Em 12 meses, o saldo é negativo em US$15 bilhões (-0,8% PIB). Em sua composição, a balança de bens foi superavitária em US$3,9 bilhões, enquanto a conta de serviços apresentou déficit de US$3 bilhões. Dentro de serviços, destaque para a queda de 8,6% nos gastos com viagens. Na parte de renda primária, o saldo foi negativo em US$5,5 bilhões, com destaque para o pagamento de US$3,8 bilhões em juros. Na conta financeira, o investimento direto no país (IDP) atingiu US$3,9 bilhões no mês, acumulando US$64,2 bilhões em 12 meses (3,25% do PIB). No que concerne ao fluxo de portfólio (Renda Fixa, Renda Variável e Fundos de Investimento), o resultado foi superavitário em US$ 8,3 bilhões, acumulando saldo de US$ 6,5 bilhões em 12 meses. Por fim, a taxa de rolagem ficou em 117% no mês. Acreditamos que essa dinâmica benigna permaneça, com o déficit em conta corrente nesse ano encerrando em torno de US$13 bilhões (0,7% PIB), sendo plenamente financiado pelo fluxo investimento direto externo que deverá permanecer acima de US$60 bilhões.    

No cenário global, a crise na Argentina se aprofundou em meio à solicitação de antecipação de parcelas dos empréstimos junto ao FMI. Em junho, a Argentina havia acordado com o FMI um empréstimo no valor de US$ 50 bilhões, com o recebimento imediato de uma parcela no montante de US$ 15 bilhões, e o restante a ser liberado ao longo dos próximos três anos. De forma inesperada, o presidente Macri solicitou a antecipação de novos recursos junto ao Fundo, o que gerou dúvidas acerca da capacidade argentina em honrar os compromissos de curto prazo. Como consequência do aumento do nível de incerteza, o Peso argentino chegou a acumular perda de 13,5% em um dia, encerrando a semana com uma desvalorização de 19%. Na esteira desses eventos, o Banco Central elevou a taxa de juros de 45% a.a para 60% a.a, tendo em vista a preocupação com o controle inflacionário. Entre janeiro e junho a inflação acelerou de 25% para 31%, inviabilizando a meta inicial de convergência para o intervalo de 12% - 17%. Se a política monetária deve amenizar a escalada inflacionária diante da expectativa de recessão econômica nesse e no próximo ano, o convívio com um dos maiores déficits gêmeos do mundo (déficit em conta corrente de 4,8% do PIB e déficit fiscal em 6,5% do PIB) requer uma resposta contracionista crível também da política fiscal.

Na Zona do Euro, a inflação apresentou surpresas baixistas em agosto, enquanto o mercado de trabalho repercute a melhora da atividade na região. Em agosto, a inflação ao consumidor (CPI) avançou 2%, abaixo da expectativa do mercado e da leitura de junho, ambas em 2,1%. Ao excluirmos alimentos e energia, o núcleo do CPI aumentou 1%, também desacelerando em relação ao mês anterior (1,1%). A dinâmica no mercado de trabalho, por seu turno, segue positiva. Em julho, a taxa de desemprego atingiu 8,2%, patamar 0,9 p.p abaixo do mesmo período em 2017, condizente com o ritmo de recuperação da atividade. Nesse sentido, ainda sob os efeitos da política monetária no campo estimulativo, acreditamos que a taxa de desemprego na região recuará gradativamente em 2019 para um patamar de 7,5% (próximo ao pré-crise de 2008). A recuperação gradual dos salários, implícita nessa melhora no mercado de trabalho, deverá seguir sem elevar substancialmente a pressão sobre a inflação nos próximos meses, e permitirá que o Banco Central Europeu mantenha a taxa de juros no patamar atual até meados de 2019.

Nos EUA, a inflação derivada dos gastos pessoais do consumidor (PCE) reforça o cenário de duas altas adicionais pelo FED nesse ano. Entre junho e julho, o PCE acelerou de 2,2% para 2,3%, em linha com a expectativa do mercado. O núcleo do PCE (exclui alimentos e energia), principal referência de inflação para o FED, acelerou no período de 1,9% para 2% em termos anuais. Embora a inflação já se encontre na meta estipulado pelo FED, temos medidas de estímulo no campo fiscal sendo implementadas e que devem exercer pressão adicional sobre o nível de preços nos próximos meses. Diante desse cenário, avaliamos como inevitável a continuidade do aperto monetário nos EUA, com alta de juros nas reuniões de setembro e dezembro desse ano, elevando o FED funds do intervalo de 1,75% - 2% a.a para 2,25% - 2,50% a.a.  

Na China, os dados de confiança (PMI) de agosto mostraram uma leve melhora frente às últimas leituras. No mês, a confiança da indústria alcançou o patamar de 51,3 pontos, ante 51,2 em julho. Na abertura do indicador, o destaque da aceleração adveio do componente produção (de 53 para 53,3 pontos), enquanto as ordens para exportação, ainda penalizadas pela tensão comercial, cedeu de 49,8 para 49,4 pontos. Nessa mesma direção, o componente importações alcançou o patamar de 49,1 pontos, o menor nível desde 2016. Já os componentes de inflação revelaram maior expectativa inflacionária por parte dos agentes nos próximos meses. Sobre a confiança no setor de serviços, em agosto o indicador subiu de 53 para 53,4 pontos. No agregado das pesquisas, o PMI composto acelerou levemente entre julho e agosto, saindo de 53,6 para 53,8 pontos. Embora a tensão comercial insira riscos ao cenário de crescimento, mantemos a projeção de expansão do PIB em 6,5%.

Na próxima semana, contaremos na agenda local com a divulgação do IPCA de agosto na quinta-feira, para o qual esperamos variação de 0,01%. Na terça-feira, o desempenho da indústria em julho será divulgado pelo IBGE. Projetamos uma queda de 2% na margem. Na agenda global, destaque para os dados do mercado de trabalho nos EUA, que serão conhecidos na sexta-feira.

 

 
 

 


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