15/02/2018 - 10:58 | Economia

Dinâmica da massa salarial e a expansão do consumo em 2018

Tópico Especial

Dinâmica da massa salarial e a expansão do consumo em 2018

 

José Luciano da Silva Costa

 

O consumo é a componente chave da demanda para definir o potencial de crescimento da economia em 2018. O crescimento do investimento deverá ser quase o dobro da expansão do consumo ao longo desse ano, mas a maior contribuição para a expansão do PIB em 2018 deverá vir do consumo devido ao seu peso na demanda. Portanto, a análise detalhada do comportamento dos condicionantes do consumo permitirá avaliar melhor o potencial de surpresa do crescimento da economia. 

A massa salarial ampliada¹, que inclui os rendimentos do trabalho e os benefícios sociais, será um dos elementos importantes para avaliarmos o potencial de crescimento do consumo.A inclusão dos benefícios visa permitir uma avaliação mais ampla da capacidade de renda das famílias e resulta no aumento do poder de previsibilidade dos modelos de consumo. A análise do comportamento da massa ampliada também permite separar o comportamento dos rendimentos e da ocupação tanto do setor privado quanto do público, que têm experimentado dinâmicas distintas nos últimos anos, e que provavelmente permanecerá ao longo de 2018.

A massa de salários reais do setor privado deverá expandir em ritmo menor em 2018, enquanto o setor público deverá ficar próxima da estabilidade. A dinâmica salarial e da ocupação do setor privado deverá seguir favorável em 2018. Após dois anos consecutivos de contração entre 2015 e 2016, no qual os salários reais do setor privado acumularam queda de 2,4%, a expectativa é de moderação do crescimento dos salários após a substancial alta de 3,2% em termos reais observada em 2017. Os salários reais deverão subir 1,4% em 2018 como reflexo do menor reajuste nominal dos salários e dos efeitos da inflação moderadamente mais alta ao longo desse ano. A ocupação crescerá em média 1,6%, o que interromperá três anos consecutivos de queda que resultou na eliminação de 3,1 milhões de postos de trabalho com carteira de trabalho. 

Com dinâmica menos favorável, a massa salarial do setor público deverá crescer 0,5% em 2018. Nos últimos dois anos, a massa salarial do setor público expandiu em média 2,5% ao ano em termos reais. Esse desempenho foi possível devido ao aumento dos salários reais, que subiram 3,4% nesse período e compensaram a queda de cerca de 1,6% da ocupação do setor. Entretanto, durante esse ano, a dinâmica deverá ser diferente, pois com as restrições fiscais maiores, não haverá espaço para reajustes reais dos salários dos governos federais, municipais e estaduais. Portanto, a nossa expectativa é um reajuste médio nominal de 3,7% dos salários do setor público, o que significará praticamente estabilidade em termos reais. A ocupação também deverá subir de forma comedida e acumular alta de 0,6% em 2018. Dessa forma, a massa salarial do setor público deverá crescer 0,5% em termos reais ao longo de 2018.  

Por sua vez, o crescimento dos benefícios sociais será mais lento em 2018 com menor reajuste do salário mínimo e dos programas assistenciais. Uma parte importante da massa salarial ampliada advém dos benefícios sociais, que representam cerca 24,4% do total. Nos benefícios sociais, consideram-se as aposentadorias do setor privado e público, os programas de transferência de renda (bolsa família e benefício de prestação continuada - BPC), o seguro desemprego e o abono.

Uma parte dos benefícios deverá contrair em 2018 devido às regras de acesso mais restritivas e ao reajuste menor dos benefícios em termos nominais com a desaceleração da inflação. No caso do programa bolsa família, o valor dos gastos deverão subir 2,8% esse ano, o que representará contração de 1,0% em termos reais. Nossa expectativa é que o número de beneficiários do programa deverá crescer 1,0% em 2018, após ter contraído em média 0,4% ao ano no período de 2014 a 2017. Por sua vez, o valor médio dos benefícios recebidos subirá próximo do reajuste do salário mínimo, o que representará alta nominal de 1,8% em 2018. Após o intenso crescimento do seguro desemprego entre 2010 e 2014, sendo que nesse período essas despesas cresceram 14,0% em termos nominais e 7,2% em termos reais, as regras mais rígidas de concessão do benefício mudaram essa dinâmica. A trajetória dos gastos com seguro desemprego desacelerou e os gastos contraíram em média 5,5% em termos reais de 2015 a 2017. Para 2018, a tendência é permanecer em queda e deverá registrar contração real de 1,2%.

Os benefícios de prestação continuada e ligados à previdência deverão manter a expansão devido ao crescimento vegetativo dos beneficiários dos programas.No caso dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC), os gastos deverão subir 5,4% em termos nominais, explicados principalmente pelo aumento do número de beneficiários, o que representará um ganho real de 1,5%, e resultará em uma desaceleração expressiva frente à média de 7,5% em termos reais de aumento durante 2016 e 2017. As despesas com Benefícios da Previdência tanto públicos quanto privados deverão manter o crescimento real devido ao aumento de beneficiários, que vem crescendo em ritmo médio de cerca de 3,0% ao ano nos últimos dez anos. Em 2018, as despesas com previdência do setor privado deverão crescer 6,1% em termos nominais, o que representará um ganho real de 2,2%. As despesas com previdência do setor público também seguirão se expandindo e crescerão 5,0% em termos nominais e 1,2% em termos reais.

Os benefícios totais devem expandir em 2018 no menor ritmo dos últimos anos. Como descrito anteriormente, o resultado da combinação de regras mais restritas de acesso aos benefícios, menor correção do valor dos benefícios e crescimento vegetativo dos beneficiários deverá resultar no crescimento real 1,7% em 2018. Esse resultado significará uma desaceleração importante do ritmo de crescimento médio de 6,0% em termos reais observado entre 2006 a 2017. Portanto, o impulso esperado para a massa de rendimentos das famílias advindo dos benefícios será um terço do observado nos últimos 12 anos.

A dinâmica da massa salarial mudará em 2018 com menor crescimento dos salários reais e dos benefícios. O crescimento médio da massa salarial ampliada em termos reais foi de 6,5% ao ano entre 2006 a 2014. Durante esse período, os rendimentos e os benefícios tiveram crescimento anual similar de 6,5% ao ano. A partir de 2015, a massa sofreu forte desaceleração e contraiu 1,7% em termos reais naquele ano, devido à queda dos rendimentos e dos benefícios. Em 2017, houve recuperação da massa ampliada em termos reais, que subiu 3,5% no ano, como resultado do crescimento tanto da massa de salários quanto dos benefícios, que cresceram 3,1% e 5,0%, respectivamente, em termos anuais. Neste ano, a dinâmica da massa ampliada será diferente dos últimos anos, pois haverá menor crescimento da massa de salários e dos benefícios sociais, que deverão expandir 2,5% e 1,7%, em termos reais. Portanto, a massa ampliada deverá crescer 2,3% em 2018.

O impulso para o consumo resultante da massa salarial deverá ser menor 2018, e dessa forma os demais determinantes do consumo, como por exemplo o crédito e a despesa de juros, deverão ter papel mais importante para o crescimento do consumo nesse ano. A redução da taxa Selic significará um alívio para as famílias no que diz respeito ao serviço da dívida. Estimamos que a redução da taxa de juros resultará na diminuição da despesa de juros das famílias em cerca de R$ 70,7 bilhões ao longo de 2018. A maior parte de alívio ocorrerá no crédito do segmento livre, como crédito pessoal, veículos e aquisição de bens, que terá redução da despesa de juros em torno de R$ 65,0 bilhões. No caso do segmento imobiliário, a redução dos juros deverá ser cerca de R$ 5,7 bilhões. Essa diminuição da despesa de juros significará um impulso para o consumo próximo ao total liberado pelo governo através das contas inativas do FGTS (R$ 46 bilhões) e da expectativa de liberação dos recursos das contas do PIS PASEP, que deverá injetar R$ 23,6 bilhões na economia em 2018.

O crescimento do estoque de crédito para as famílias deverá liderar a recuperação dos empréstimos  em 2018. A recuperação do crédito para o segmento de pessoa física com recursos livres, como veículos, crédito pessoal, cartão de crédito e cheque especial, já vem ocorrendo desde 2017, quando o estoque cresceu 3,5% e deverá se intensificar ao longo desse ano com alta esperada de 10,5%, em termos nominais. O crédito direcionado, que inclui principalmente o segmento imobiliário, foi mais resiliente durante a crise e manteve a expansão média de 9,4% entre 2015 e 2016. Em 2017, o estoque de crédito direcionado cresceu 5,3% e nossa expectativa é que a melhora da economia, a queda da taxa de juros e do emprego acelerem o crescimento para 7,8% em 2018.  

Portanto, o crescimento mais moderado da massa ampliada deverá ser compensado pela aceleração do crédito e pelo alívio da despesa de juros das famílias em 2018, o que implicará em um impulso importante para o consumo em 2018. Nossa expectativa é que o consumo cresça 3,3% em 2018. Considerando o peso relativo do consumo no PIB, esse resultado deverá contribuir com cerca de 2,1 pontos percentuais na projeção para o crescimento do PIB desse ano e liderar o processo de recuperação da atividade. Esse desempenho favorável do consumo e a recuperação dos investimentos resultarão no crescimento de 3,0% da economia em 2018.

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¹ O conceito da Massa Salarial incluirá os rendimentos do trabalho e os principais benefícios, como aposentadorias, pensões e programas sociais. Essa definição difere da utilizada pelo Banco Central, pois não incluímos as receitas advindas de aplicações financeiras.  

 

 

 
 

 

 

 

 


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